Tuesday, April 11, 2006

Peekaboo

Que viagem é essa? Em que lugares de antes posso encontrar-te agora? Deixando-me na sala com um livro aberto sobre o colo, os olhos conhecedores nas páginas que já não lês. Lembro-te descalça pelo jardim com aquele teu vestido, branco longo, correndo, saltando, gritando frases soltas, rodopiando, suja de terra e de ervas. O nosso cão atrás de ti, louco de alegria, e eu olhando-vos, rebentando de risos, da varanda. Olho agora esse jardim sem flores, por detrás da janela orvalhada da sala onde lias o teu livro eterno. A catedral vizinha dá as cinco da tarde e as badaladas perpetuam-se pela casa nos acordes de Charles Lloyd. The water is wide. Há uma distância impossível entre nós dois, e no entanto pretendo ainda tocar-te e sentir o teu cheiro nas minhas camisas brancas. As tuas mãos cobrem-me os olhos, e a tua voz quente anda à minha volta e faz-me lembrar as vezes em que propositadamente me fazias nódoas nas gravatas para que eu tardasse um pouco mais a sair pela manhã. Lembra-me os duches quentes a dois, totalmente vestidos, antes das festas onde éramos sempre os últimos a chegar. Peekaboo. Provocas-me correndo louca, nua, pela casa, gritando alto, escorregando nos tapetes, indo de encontro às esquinas, fugindo, escondendo-te de mim para me encontrares lá onde me querias contigo. E os gemidos e os beijos e tudo o que não consigo descrever. E os risos, e as mãos à minha volta ao descobrir-te dentro do armário do nosso quarto. Amor feito ali mesmo entre as roupas e os lençóis dobrados com tanto cuidado. E as autoridades chamadas à noite por um vizinho zeloso e preocupado contigo. Tínhamos coração em demasia tu e eu! E agora, que jogo estranho e cruel é este em que te escondes numa derradeira partida? Pensas esconder-te para sempre? Estranha viagem a tua.

(Fotografia: Roma, Itália, 2 de Março de 2006 / Texto: Porto, Portugal, 3 de Julho de 2003)

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2 comments:

Ana said...

Os sonhos encontram-se sempre no preciso local onde os deixámos partir...

Celso Rosa said...

... Quando fechamos os olhos e nos enrolamos nos braços de Morfeu.