Tuesday, April 03, 2007

Milagre que fez

Há muitos muitos anos atrás, no princípio do tempo, uma jovem mulher caminhava sozinha pela planície. Estava queimada pelo sol esta mulher, e tão magra que mal tinha sombra! De longe podia-se jurar que a cada instante iria cair, mas seguia arrastando com sofrimento os pés, fazendo levantar quase nenhuma da poeira vermelha em que se movia. Ser frágil, símbolo comovente do sofrimento, fazia de cada novo passo uma vitória. E como estava só esta mulher! Nenhum de nós terá nunca ideia de como estava só! E porquê? Tudo se passou da forma como vou contar.

Alguns dias atrás tinha esta mulher abandonado o local onde habitava devido a uma peste que começou a levar morte a todos os cantos, após a chegada de um forasteiro, e frente ao horror abandonou a aldeia onde o cheiro a corpos inchados ao sol era já insuportável. Nem os animais escapavam, e já não havia mais o que comer! Ela estava grávida, e na tentativa de escapar ilesa fugiu em busca do companheiro que tinha ido caçar lá longe há algumas semanas. Não sabia onde ele estava mas este sempre encontrava o caminho de casa na noite, guiando-se pelo cheiro da fogueira que ela mantinha acesa. Ela pensou poder fazer o mesmo, vasculhando na noite os horizontes com a esperança de alcançar o clarão da vitória, e de dia cheirando o ar na busca do odor a cinza da última fogueira. Vestígios não encontrou, ainda que o que os unia fosse muito forte. Porém, o seu corpo e o seu filho não conseguiriam suportar por muito mais tempo tamanhas provações. Ao menos se encontrasse comida, e água. Mas a terra parecia estar morta também...

Pouco mais de um dia se passou quando aconteceu. Ela parou de repente, e esteve assim imóvel longo tempo, tanto que talvez se tenham passado dias, não me recordo! Olhava só. Cheirava só. Sentia só de um jeito só de sentir. E quando se voltou a mexer foi para se sentar na terra, exausta, debaixo de um sol escaldante. Primeiro sentou-se direita, mas cedo foi deixando o seu corpo inclinar-se e apoiou-se sobre o braço esquerdo com a palma da mão aberta sobre a poeira. Ali estava! Um monumento à força, orgulho de uma qualquer nação! Depois, agarrou com a mão direita um pouco da terra vermelha que a rodeava, que levou à boca para humedecer, e que de seguida esfregou sobre a barriga em movimentos circulares murmurando qualquer coisa. De seguida ergueu essa mesma mão direita ao céu e fez alguns movimentos ritmados que não consegui perceber antes de se deixar cair de lado. Não se mexeu mais. Acabou. Ela nunca viria a saber que a razão de não ter encontrado no horizonte a chama do seu companheiro era que este também já não estava mais no mundo dos vivos. De facto ela era, sem que ela mesma o soubesse, a última sobrevivente de uma espécie, grávida de mais um membro que nunca viria a nascer. Mas quem sabe ela sempre tenha encontrado o seu companheiro noutro lugar, e lá tenham voltado a ser uma família. E eu então voei para longe...

Imediatamente de seguida nuvens escuras começaram a juntar-se sobre aquele lugar e pouco tempo passado chovia uma daquelas chuvas torrenciais que transformou a terra em lama e as covas em charcos. Rios distantes transbordaram margens longínquas e vieram lavar a terra e arrastar os corpos para o mar. Também o corpo da jovem mulher foi arrastado, com a sua criança impossível, mas não para o mar! Quando parou de chover o seu corpo estava aninhado, torcido e coberto de lama, junto a uns altos rochedos próximo da praia. E ali ficou, dia após dia mais submersa no pó, ano após ano sendo visitada pelas ervas, pelas plantas, pelos insectos... Até que uma oliveira ali floresceu, cresceu, ganhou tronco e deu folhas. Esta viria a oferecer frutos que muitos milhões de anos mais tarde viriam a ser colhidos por membros de uma nova espécie que tinha ocupado a terra.

Neste momento eu sei o que provavelmente estão a pensar: uma oliveira com milhões de anos? Acreditem naquilo que digo, sei do que estou a falar. Esta não era apenas uma oliveira, era a oliveira das oliveiras, a primeira, a que nasceu de um monumento à força, ao orgulho de qualquer nação. Esta oliveira era infindável, e na sua casca palavras viriam a ser escritas à faca, juras de amor viriam a ser realizadas. Muitos se viriam a encostar no seu tronco à sombra fresca do Verão e a provar os frutos do seu ventre. Foram milhões de anos, centenas de pessoas que por baixo dos seus ramos passaram, para descansar a ver o mar ou para provar as suas azeitonas, para escrever no tronco o seu nome ou para chorar em paz um amor perdido, para refrescar do calor ou idealizar um novo universo. E a nossa oliveira foi assistindo a tudo isto, de bom grado apreciando a companhia, de bom grado oferecendo os seus frutos, e crescendo, crescendo, até ficar enorme como um sonho.

Até que houve quem viesse um dia com um machado por haver necessidade de lenha para abastecer um farol próximo dali. A lâmina ergueu-se no ar e desferiu um primeiro golpe, de que saiu um líquido vermelho que o lenhador não viu. E eu então voei para longe...

Imediatamente de seguida nuvens escuras começaram a juntar-se sobre aquele lugar e pouco tempo passado chovia uma daquelas chuvas torrenciais que transformou o azul do mar em negro, que fustigou os telhados das casas, apanhando no mar os marinheiros desprevenidos. O escuro chegou mais rápido e foi necessário acender-se a fogueira do farol mais cedo que o habitual. Vários barcos da aldeia tinham sido apanhados de surpresa no mar e era preciso indicar-lhes com o fogo o caminho de casa. Foram vários os que se mobilizaram para a ajuda. Já se ouvia o choro de várias mulheres que, já se imaginando viúvas, se juntaram no alto do morro junto ao farol olhando o horizonte no escuro em busca de sinais, e ajudando a passar de mão em mão a lenha cortada e ainda verde. Na corrente de mulheres que iam passando os toros de madeira umas para as outras havia uma que, sem saber porquê, sentiu algo estranho atravessar-lhe o corpo ao reparar no tom vermelho do pedaço de oliveira que lhe passava pelas mãos. Ergueu-se então, passou a mão direita sobre um útero de oito meses já, o seu, e olhou o horizonte vendo ao longe uma luz que viria momentos mais tarde a descobrir ser a do barco que lhe trazia de volta aos braços o seu marido. Muitas mulheres choraram nos dias que se seguiriam, mas a mulher em questão abraçaria o seu esposo e poucos dias depois daria à luz uma menina, a que chamariam Olívia por referência à oliveira que deu o sinal.

Olívia cresceu sem ter na aldeia a sombra da velha oliveira, sem provar os seus frutos, mas também sem saber que a sua seiva tinha entrado nas mãos gretadas da sua mãe naquela noite distante de vendaval e naufrágios, e que dai tinha passado, através da corrente sanguínea desta, para o seu próprio corpo, para o vermelho do seu próprio sangue! Sabia, porém, que em certo sítio, junto a uns altos rochedos próximo da praia, havia uma oliveira que houvera sido cortada. E sabia também, pois a mãe lho tinha contado, que foi depois de esta ter visto um pedaço de oliveira que sangrava que virou os olhos para o mar e viu o clarão do barco que traria o seu pai para casa. Por isso Olívia muitas vezes se dirigia àquele local nos rochedos para olhar o mar, imaginando que a lenha em sangue que sua mãe tinha visto, que tinha dado o sinal da salvação do seu pai, poderia perfeitamente ser o daquela oliveira antiga que diziam existir ali. E então imaginava que fosse.

O tempo foi passando, e naquele mesmo local, anos mais tarde, Olívia encontrar-se-ia às escondidas com aquele que viria a ser o seu futuro marido, curiosamente um neto do lenhador que tinha derrubado a oliveira, e na ausência de um tronco de árvore onde gravar os seus nomes dentro de um coração, gravaram-nos unidos para sempre na promessa de um beijo. Foram felizes, com todos os seus problemas, tendo tido oito filhos.

No ano de 2007, numa cidade muito longe do local onde tiveram lugar os anteriores acontecimentos, descobri uma descendente directa de Olívia. Era uma jovem mulher de vinte e poucos anos de idade, casada, mas algo infeliz. Não tinha filhos e entre ela e o seu companheiro algo se passava de errado. Ambos tinham no olhar aquela chama que nos faz ter a certeza que são um do outro, mas os silêncios entre ambos faziam daquele um lar triste e muito frio. Dados os afazeres de ambos tinham sempre muito pouco tempo um para o outro, para não falar que por questões profissionais ele frequentemente tinha de viajar por longos períodos, e isso começava a pesar.

Certa noite ele chega a casa e diz-lhe que vai ter de partir por uns dias, dirigindo-se de seguida ao quarto para procurar enfiar à pressa umas quantas coisas dentro de uma mala. Ela mantém-se na sala em silêncio, como monumento à força, querendo não acreditar no que estava a acontecer, mas também sem nada dizer. Poucos minutos depois ele tinha saído de casa, dando-lhe apenas um leve beijo, e então aí ela libertou o que estava dentro e chorou. Chorou à janela para a rua, vendo-o sair do prédio e caminhar na neve até um táxi que o aguardava. E eu então voei para longe...

Imediatamente de seguida nuvens escuras começaram a juntar-se sobre aquele lugar e pouco tempo passado chovia uma daquelas chuvas torrenciais, raramente vista por aquelas bandas e naquela altura do ano, que começou a derreter a neve e a trazer o caos à cidade. Imediatamente escureceu! Ouviam-se carros a buzinar, pessoas a gritar nas ruas, correndo para fugir da chuva e ele, olhando pela janela do táxi, foi testemunha de vários acidentes.

Ela estava em casa ainda à janela, olhando para a chuva que caía lá fora e observando com cuidado a ausência do seu homem. Tinha a mesa posta para um jantar a dois, na qual até uma vela tinha colocado para a surpresa que lhe queria fazer, mas de que ele nem se deu conta. Estava com medo e vasculhava com o olhar os horizontes nebulosos da rua.

Ao mesmo tempo ele, dentro do táxi, no meio do caos do trânsito na chuva, estava desfeito e sem perceber porque tinha saído assim de casa, de forma tão fria. Porquê, se a amava? Procurou olhar uma vez mais para a tempestade lá fora através da janela embaciada do táxi, mas como nada via limpou um pouco a janela com a manga do casaco e aproximou os olhos do vidro, colocando as mãos em concha entre o vidro e os olhos. E o que viu, ou julgou ter visto, era impossível! Uma gigantesca oliveira erguia-se à chuva no meio da avenida! Era impossível! Tinha a altura de três andares e as suas raízes rasgavam o alcatrão da estrada fazendo-o erguer em certos pontos. Ele saiu do carro parado no trânsito para ver se não delirava, e em plena chuva constatou que o gigante ali estava, com os néons coloridos dos reclames das lojas vizinhas reflectidos no verde molhado das suas folhas, no negro brilhante dos seus frutos. E então virou-se para o lado e viu algo improvável entre os arbustos de um jardim próximo, e enfiado em água até aos calcanhares avançou para esse jardim. De seguida regressou para casa...

Enquanto isso ela, inquieta e receosa, ainda se encontrava à janela como antes, mas desta vez tinha na mão a vela que estava sobre a mesa do jantar. Estava com medo de ficar sozinha na escuridão caso a energia falhasse e resolveu acendê-la e trazê-la com ela para a janela, como faroleiro olhando a noite em busca do barco a pôr a salvo. Nisto viu-o correr em direcção à porta do prédio, no exacto instante em que a electricidade tinha falhado. O seu coração disparou! Segundos depois ele entrava em casa e dava com ela na sala, em pé em frente à porta da rua, com a vela acesa na mão. Ele olhou-a sem dizer nada, deixando cair no chão a mala, e ela pousou a vela numa mesa ao lado e agarrou num cobertor que tinha sobre o sofá para pôr sobre os ombros do seu homem que tremia, ensopado da cabeça aos pés. Enquanto fazia isto ele beijou-a, e ela notou com o olhar algo que ele trazia aninhado dentro da mão esquerda, fechada. Ele ergueu então essa mesma mão, oferecendo-lhe o que se encontrava dentro dela. E ela soluçou ao ver a mais bela rosa, vermelha como sangue, que jamais vira na sua vida. Rosa de pleno Inverno! E então disse-lhe, olhando-lhe de frente os olhos, e com um sorriso antigo como o mundo: Vais ser pai! A nossa história não vai ter fim!

E eu então voei para longe...

(Fotografia: alteração cromática, Valladolid – Espanha, 2 de Abril de 2007 / Texto: Coimbra, 3 de Abril de 2007)

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5 comments:

Anonymous said...

identificar o nosso lugar e o nosso papel na ordem e no movimento das coisas não é fácil, não...

abraço

Tiago

Celso Rosa said...

Ainda para mais quando nos assalta com frequência a ideia de que possamos realmente não ter importância nenhuma, e de que daquilo que fazemos não resulta qualquer bem fundamental para ninguém. Acabamos por nos sentir demasiado sós e aos poucos, mesmo sem nos darmos conta disso, vamos desistindo de tudo.

Abraço

Anonymous said...

temia em escrever algo..mas é mais forte do ke eu.toca.me e encontro-me ai dentro. GOSTAVA DE PODER TER UM FINAL ASSIM CONTIGO..ADORO-TE

Abílio said...

Celso,

Não vai dar para combinar nada nesta semana, quando é que voltas a passar por LX? É mais fácil assim, é que tenho a Angela doente.

Melhor, eu telefono-te.

Tem tudo que ver com o teu texto, acredita.

(risos). Não me apetecia mandar um e-mail...

Abraços,

Abílio Neto

Celso Rosa said...

Não me digas que vais ser pai!? Ou melhor, diz...
Um abraço!