Tuesday, February 12, 2008

O que restou


Soaram já há muito as cinco da manhã, e eu dou voltas e voltas nos lençóis que se agarram ao suor do meu corpo como folhas de um papel poroso. O sono decididamente não me procura mais. Não sei quem visita, mas a mim deixa-me imerso nesta gelatina açucarada e enjoativa. Fizemos todos a mesma viagem escura para Leste naquele mês distante que procurámos desde então esquecer. Mas alguma coisa perdurou dessa perda de inocência, desse abandonar das ilusões originais, que desde então a cada passo se cola a nós como o medo do escuro ou de vozes tumultuosas num país em guerra. Quantas coisas eu te prometi! Quantas coisas... Tantas vezes te disse, e outras imaginei dizer, que todas as coisas raras que pudesse encontrar nesse caminho traria de volta para ti, meu amor, em caixas e jaulas empacotadas como tesouros sem preço. Quantas mentiras disse sem saber, quantas falsidades produzi em tão reduzido espaço de tempo. E que coisas eu te trouxe? Uma alma descrente e enojada com este mundo.

Como se estivesse lá neste instante, ouço ainda as máquinas de respiração artificial bombearem para dentro daquele corpo inerte o ar que eu imaginava saturado do pó da terra. E o que perdurou depois em mim é ainda demasiado gorduroso e difícil de ser removido por banhos de água quente. Dói ainda, e só queria devolver à vida tudo o que a ela me deu até agora! Livrar-me da obrigatoriedade de estar aqui uma vez mais a cumprir uma função sem sentido, e que ninguém consegue explicar-me que finalidade serve.

Ainda não há muito tempo atrás acordava a meio de um sono leve com sons estranhos que me chegavam das frinchas das janelas, vindos da noite escura. Por vezes abria a porta para o negro da noite, sem acender a luz para não atrair os mosquitos ou atenções indesejadas, e sentava-me num pequeno muro de tijolo e cimento que havia do lado de fora do quarto fumando um cigarro e tentando perceber que seres seriam esses que produziam os sons que me tiravam o sono. E nessas noites de insónia, por entre as sombras das árvores, parecia-me por vezes ver outras sombras, e por entre o resfolegar das folhas parecia ouvir outros sons. Quando os cães ladravam uma paz aliviava-me a tensão dos músculos e trazia-me à memória o cheiro distante do estio nos campos do Mondego, quando passeava com os meus cães depois do jantar.

No dia em que tudo aconteceu perdi a consciência de todas as coisas. Apenas lembro a rádio do carro que transmitia as notícias e os pára-brisas cheios de pó vermelho. Avançávamos aos solavancos e a janela do meu lado estava aberta, colando-se esse mesmo pó vermelho ao meu braço, que ia de fora, segurando um cigarro meio fumado já! O que a memória retém! E depois só recordo um som forte e de assistir ao desfilar de todas as coisas, de todas as cores, e de um zumbido que se ia afastando de mim enquanto aumentava uma dor no estômago e nas pernas. Depois recordo apenas estar deitado, coberto por um lençol branco, e ligado a fios, muitos fios estranhos! E ao meu lado um outro corpo, e o som de uma máquina de respiração artificial. Aquele som dorido da borracha comprimida e estendida. O cansaço dos materiais ao calor da tarde, o suor e o cheiro doce a terra e sangue misturados no meu corpo. A dor intensa atirava-me então de novo para as noites em que do quarto eu ouvia os estranhos sons de fora e abria a porta para ao relento fumar.

Dias devem ter-se passado sem eu deles tomar conta, pois ao sentir o vento no rosto abri os olhos para as hélices de um bimotor vermelho e branco que giravam próximo de mim! Fazia um som ensurdecedor mas o vento sabia-me bem! Eu estava deitado ainda, numa espécie de padiola, e ao passar a mão pelo rosto senti a aspereza de uma barba de dias. Quantos dias? Não sei dizer, mas todos os tesouros que achava que tinha guardado para te trazer estavam perdidos. Não os via mais! Os caixotes e pacotes tinham todos ficado longe, e à minha volta apenas três pessoas que eu não conhecia de parte alguma se atarefavam numa lentidão dolorosa. Fora de mim não havia mais nada, e mesmo dentro o que existia estava longe, muito longe, de ser o que nos teus braços eu desejei entregar. Era nada, e sentindo isso mesmo entreguei-me então à brisa das hélices e recordo de por instantes me sentir sereno e em paz como nos passeios de Verão após o jantar, vendo os cães brincarem, ouvindo as cigarras e sentindo aquele cheiro a feno seco e a terra quente.

Os dias que se seguiram foram-me roubados! Foram-me roubados pois pouco recordo deles a não ser o constante movimento, o calor, o suor coberto de pó, moscas que me provocavam comichões. E pistas de aviação, e estradas esburacadas sem fim em viaturas que ardiam de febre! Não me lembro sequer do que comi, ou sequer se comi. Quem me terá alimentado? Só dias mais tarde tive finalmente a segurança aparente que o meu espírito precisava sem se dar conta dessa necessidade. Abri os olhos numa enfermaria ampla e de paredes forradas de azulejos brancos e azuis retratando cenas bucólicas do trabalho nos campos. Estava fresco, e algumas mulheres de vestes brancas andavam por ali entre as camas. Quando olharam para mim disseram algo numa língua que não me é familiar e uma delas veio na minha direcção. Agarrou a minha mão e sorriu, passando a outra mão pelos meus cabelos. Depois virou-se para as outras e disse algo mais que de novo não pude entender... Tentei, mas não consegui falar. Era como se falasse sem som, deixando os outros perplexos pelos movimentos sem consequência dos meus lábios.

Quando sai daquele sítio nunca mais consegui voltar a ser quem era. Estou ainda a reaprender a funcionar neste novo mundo que agora me parece mais estranho e brutal, e apesar de com muita frequência me lembrar do teu rosto e da vida que tínhamos juntos a verdade é que não voltei a ter coragem de te procurar, minha princesa frágil... Raramente consigo dormir, como hoje, e nesses dias abro este caderno no qual escrevo e registo aqui algumas das memorias que nos últimos tempos me procuram de noite. Ao fazê-lo atenuo um pouco alguma da minha angústia, deito para o fundo do oceano algum do meu lastro, e numa forma consciente de materializar o impossível imagino que me ouves ao mesmo ritmo em que atiro para aqui estas palavras meio apodrecidas pelo clima, em que as rasuro e reescrevo neste bloco pobre e imundo.

Daqui a muito pouco o sol vai nascer aqui. Já se sente aquecer o dia abrasador que se aproxima, e vou pousar este caderno e fazer como todos os dias tenho feito. Vou-me arranjar e sair para a rua. Dada a minha condição actual demoro imenso tempo nesta tarefa simples, mas gosto de sair à rua pela manhã e de me sentar próximo do mercado, debaixo de uma tamareira antiga, e ficar a olhar toda aquela azáfama da montagem das bancas e chegada dos clientes. Este mercado tem cores, cheiros e sons que penso serem únicos, e no meio de tanta gente que padece cansaços para todos os dias ali ir vender ou comprar alguma coisa, no meio de tantas vozes, acompanhado por tanta gente como eu, sinto que não estou só e fico com a certeza de que agora, que os embrulhos com todas as riquezas que um dia te desejei oferecer ficaram perdidos lá longe, acabará por ser a melhor esta minha opção. Assim, meu amor, serás um dia absolutamente livre para poderes olhar a vida com a esperança que é precisa. A esperança que eu perdi, naquele dia distante, ouvindo as notícias com o braço de fora do carro ao calor da tarde.

Amo-te ainda da mesma forma, com a mesma intensidade. Mas não sou mais o mesmo, e aquilo que restou apenas precisa de paz e de procurar distanciar-se de todas estas coisas que aqui, nestas palavras, vou deitando fora dia após dia. Passo as manhãs num muro em frente ao mercado e as tardes, quando o calor aperta mais, deitado na minha cama à sombra, com as janelas abertas para o ar correr, ouvindo o bater de asas das pombas que se refugiam do calor na sombra da minha varanda. Já experimentaste em plena tarde de Verão deitares-te na cama, com as janelas abertas e a brisa quente a correr? Experimenta! Fecha os olhos e dedica-te a ouvir o som das asas das pombas nos beirais...

Mas meu Deus! Com quem estou eu a falar?

(Fotografia: Coimbra, Setembro de 2007 / Texto: Coimbra, Portugal, 25 de Janeiro a 12 de Fevereiro de 2008)

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2 comments:

Natacha said...

Já nem sei como vim aqui parar, mas já faz algum tempo. Para já, uma primeira "afinidade": Angola, terra que me viu nascer e onde pretendo ir breve...
Depois, a forma como escreves, permite-me o termo: "brutal" no melhor sentido da palavra...
Parabéns!

Vou passando...

Mauro said...

"Soaram já há muito as cinco da manhã, e eu dou voltas e voltas nos lençóis que se agarram ao suor do meu corpo como folhas de um papel poroso. "

Com o devido respeito, esta passage (e apenas esta) podia ter sido escrita por mim.

Gostei do que li, e a foto que acompanha o texto é tambem ela muito interessante...

(ainda só li esta entrada - estou demasiado cansado para mais e incapaz de absorver os textos e as imagens com a intensidade merecida)

Vou passando por cá - aos poucos - e lendo/deliciando-me/aprendendo (tudo o que me for possivel)

Um grande abraço (o pôr do sol no Porto é eterno)

Mauro Correia