Thursday, September 06, 2007

Se vivesses aqui estarias agora em casa


Relembro o crepitar de uma lareira na Lousã em Dezembro numa casa que era minha e a paz que ali senti com a minha cadela preguiçando pela sala semi-aquecida nessa noite próxima do Natal. E sinto uma ausência. Relembro-me junto ao Tamisa em Londres fumando um cigarro numa amurada do rio e assistindo ao devir rápido da cidade transitando da luz para a escuridão. E sinto uma ausência. Relembro um fim de tarde gelado e ventoso mas solarengo em frente ao mar na cidade do Porto sentado numa cadeira o casaco bem fechado luvas e cachecol cobrindo-me boca e nariz e eu feliz na ventania com o sal marinho a queimar-me os olhos. E sinto uma ausência. Relembro um entardecer chuvoso e escuro em Coimbra e eu junto ao rio esperando o transporte para casa ouvindo as badaladas da torre da Universidade. E sinto uma ausência. Relembro-me pelas ruas de Capri em Janeiro à noite cantando em dueto ao frio da madrugada instigado pelo excesso de cerveja e alegria. E sinto uma ausência. Relembro as sombras das plantas da rua no alaranjado das paredes brancas da casa de Coimbra ao pôr-do-sol e eu sentado no sofá frente à janela ouvindo Maria Callas e aguardando com entusiasmo a chegada da Ursa Maior ao meu olhar de criança. E sinto uma ausência. Relembro caminhar por Amsterdão com uma música de Jobim na cabeça e pensando na melhor prenda a dar a uma mulher. E sinto uma ausência. Relembro uma felicidade tão grande que não acreditava que pudesse existir mais que isso na vida. E sinto uma ausência. Relembro tanto mais que não queria esquecer nunca. E sinto uma ausência. Relembro-me num banho de água quente deitado sonolento e coberto de espuma com jazz vindo da sala misturado com aroma de incenso e um copo de Martini Bianco pousado na borda da banheira num quarto de banho iluminado somente por velas. E sinto uma ausência. Relembro uma noite quente na Nazaré frente ao mar numa varanda com boa companhia e virando uma garrafa de Porto nos breves intervalos do silêncio antes do mergulho na madrugada. E sinto uma ausência. Relembro-me fotografando em Paris no Dezembro mais gelado da minha vida com um gorro enfiado na cabeça e cobrindo-me as orelhas. E sinto uma ausência. Relembro conversas de automóvel ao som de boa música vidros abertos e braço de fora segurando o cigarro que ia fumando a intervalos ao distanciar-me de lado nenhum. E sinto uma ausência. Relembro um corredor escuro na Universidade e eu sentado um tempo sem fim num sofá à espera de saber a classificação do meu trabalho e uma porta de madeira abrindo-se finalmente e aquela frase que me fez pensar por uns dias que poderia realmente voar. E sinto uma ausência. Relembro caminhar ao longo da baia de Luanda com todo o vagar e saudade de outros céus mais frios. E sinto uma ausência. Relembro uma mesa composta de companheirismo e saudade antecipada no Porto quando palavras poderiam perfeitamente ter sido colocadas de lado em prol de sorrisos e olhares. E sinto uma ausência. Relembro a excitação de um regresso a casa após uma viagem e a antecipação dos sorrisos sem haver lugar para os maus momentos. E sinto uma ausência. Relembro-me deslumbrado pelas aves ao entardecer de Fevereiro em Roma bebendo um café e aquecendo na chávena os meus dedos para melhor pegar na caneta com que escrevia. E sinto uma ausência. Relembro a esperança no futuro quando fechava os olhos na noite e poderia ter sido quase tudo sem sair de um mesmo lugar. E sinto uma ausência. Relembro acreditarem em mim e de eu próprio acreditar. E sinto uma ausência. Relembro daram-me parabéns e cantarem-me num jantar de aniversário. E sinto uma ausência. Relembro o sofrimento ao abandonar pela última vez o pequeno quarto onde me fiz adulto para me lançar na aventura falhada da vida e de me ter sentado na borda da cama olhando as estantes vazias agora onde antes havia vida. E sinto uma ausência. Relembro a voz perdida e distante da minha mãe ao telefone a milhares de quilómetros. E sinto uma ausência. Relembro os olhos incertos e assustados do meu avô numa cama de hospital nos seus últimos dias de vida procurando prados verdes em paredes pintadas de azul. E sinto uma ausência. Relembro passear de braço dado pelas docas da Coruña sem querer realmente saber como seria o dia seguinte procurando escolher o local ideal para jantar. E sinto uma ausência. Relembro o soluço contido da minha avó no dia da minha partida para Angola. E sinto uma ausência. Relembro as cortinas brancas de um hotel na Foz do Arelho ondulando na brisa da tarde num quarto sobre um mar coberto por um céu púrpura. E sinto uma ausência. Relembro um aperto de mão e um “até breve”. E sinto uma ausência. Relembro estar sentado na praia numa manhã de Julho em Sanxenxo sentindo o sol acariciar-me a pele após uma noite de cansaços e álcool com aves planando suavemente ao alcançe de um braço num sonho. E sinto uma ausência. Relembro acordar de manhã com a excitação de uma viagem à muito esperada só para conferir uma vez mais a bagagem arrumada à vários dias atrás. E sinto uma ausência. Relembro o aperto que sinto cada vez que passo de comboio pela casa onde cresci a caminho de qualquer lugar distante. E sinto uma ausência. Relembro-me na estação ferroviária de Nápoles com a desejada cabeça pousada sonolenta sobre o meu ombro direito e eu petrificado de espanto sem saber o que fazer ou o que dizer e um cigarro fumando-se sozinho numa mão esquerda de pedra. E sinto uma ausência. Relembro os dedos do meu pai cheirando a tabaco ao lavar-me o rosto com água fria antes de me deitar e me dizer adeus para sempre. E sinto uma ausência. Relembro o desejado cigarro em Bilbao após horas encerrado aborrecido enfadado num museu. E sinto uma ausência. Relembro de me terem certo dia desejado “boa sorte”. E sinto uma ausência. E de tanto sentir todas estas ausências de tudo o que vivi ou imaginei ter vivido quase que me rasgo em dois no desejo de ir fazendo o percurso inverso até encontrar de novo uma vez mais cada um desses frágeis momentos que pouco significando em si mesmos deram sentido ao que sou e substância a tudo quanto desejo da vida. É como se cada segundo passado fosse um fragmento da mesma fita adesiva que me envolve e sustém em mim cacos conexos. Escrevendo assim talvez um dia se a memória me falhar em definitivo eu possa ler tudo isto e no que leio descobrir quem fui e dar-me conta que sem cada um desses instantes eu seria apenas e nada mais do que a catástrofe.

(Fotografia: Porto, Portugal, Junho de 2007 / Texto: Luanda, Angola, 3 e 4 de Setembro de 2007)

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3 comments:

RUX said...

Sem palavras..... fico estarrecido perante tão maravilhoso poema. Mais uma vez e sempre.

Sê Bem-Vindo

Ana said...

E, talvez, um dia... Ao leres este texto e te recordes de todas as razoes de ausência,sorrias. Nas ausências que sinto aqui, sinto a ausênia também de um amigo querido que me faz lembrar Coimbra num tom desperto. Beijos!

Celso Rosa said...

Um beijo para ti também AnaB. Que estejas bem onde quer que estejas...