Friday, March 30, 2007

Trâmites das despedidas

Lembro o teu sorriso na chuva miudinha de Março, nesta que hoje cai sobre este mundo daqui e que na minha pele quente se confunde com gotas de suor. Queria-te no meu hemisfério, neste lado do mundo que é o meu, mas não estás. Então imagino-te e sento-me no cais com as pernas balançando no vazio sobre as águas calmas e cheias de vida, sorrindo um sorriso de saudade imensa. Uma brisa ocorre visitar-me de vez em quando, trazendo um aroma que imagino que seja o do teu corpo…

Este sou eu para ti, tentando ser maior que o mundo, e com um gesto das mãos recompondo a posição das estrelas no espaço – que pretensão! Olho quem passa, tentando adivinhar-lhes os percursos, como num exercício sábio de me afastar de mim, de me deixar partir deste cais para outro qualquer lugar onde nunca estive, para o tal outro hemisfério de que já ouvi falar tanto mas que desconheço. Amo tanto este lugar que quero partir daqui para não mais regressar.

Hoje apetecia-me conhecer-me, saber como sou por dentro, dissecar-me sob a luz forte de uma mesa de observações, mas isso foi algo que nunca me foi permitido. Desejo uma biopsia das minhas emoções com consequente relatório e indicações terapêuticas.

Canto uma cantiga antiga de embalar, baixinho, tão baixo que nem me dou conta de a murmurar. Aprendi-a do meu pai quando criança e ao lembrá-la sou criança uma vez mais, e sonho, e inclino-me para trás e deito-me assim no cais, com as mãos por trás da cabeça e com a chuva caindo-me directamente na face, nos olhos, ensopando o meu corpo e as roupas que o cobrem, um corpo esquecido que já não me pertence mais. Olho o céu cinzento e a chuva que cai, deitado no calor do amanhecer, com o sorriso que me vai acompanhar desde hoje até ao fim da minha vida. E tudo isto para quê? Não sei bem. Não estou certo do que digo nem sequer se tenho alguma coisa para dizer, mas nunca aprendi a partir, nem os trâmites e legalidades das despedidas, e por isso penso em ti, assim aqui deitado à chuva, para que ninguém que possa por aqui aparecer note que são lágrimas que me escorrem pelo rosto.

Está feito! Tudo o que tenho não quero, tudo o que sou não me pertence mais, e se rio ou se choro é apenas porque sou livre para o fazer! Tudo isto foi escrito numa mensagem que lançei numa garrafa ao mar, para que talvez ela possa encontrar o caminho de casa e dar notícias de que me encontro bem. Sabes, tudo não passa de chuva, e essa não ficará para sempre.

(Fotografia: Luanda – Angola, Fevereiro de 2007 / Texto: Coimbra, 30 de Março de 2007)


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Wednesday, March 21, 2007

O homem que amou

Era uma vez um homem! Esse homem, jovem, era muito feio, disforme, com um rosto saído directo de macumba, e nem os seus pais o amaram. Tinha perdido perna esquerda numa mina, e para falar sério os seus pais não foram pais de verdade… lhe fizeram só! No entanto, era possuidor de um enorme coração, esse jovem, pastor de ofício, e capaz de criar sistemas complexos como universos no que tocava a sentimentos e casaliçes. Havia noites que dormia lá fora, olhando estrelas quando as havia, e tentando imaginar como seria um beijo beijado de verdade.

Foram anos passados assim, na mais absoluta ausência de contactos, na mais desértica e gelada rede afectos. Era insuportável! Se Deus tinha lhe criado assim, perguntava-se, porque lhe dera ele emoções, sentimentos? Como era então? Lhe ensinaram a amá-lo na catequese dos padres da missão, mas o que aprendeu foi a odiá-lo com todas as suas forças. Dava tudo para que a sua vida não tivesse de ser assim! Vida assim não valia mesmo...

Uma noite sem estrelas, quente mas tão escura que nem se atreveu a sair para fora, o Diabo procurou-o na sua pobre cubata e, passado o choque inicial e engasgo do pastor, lhe fez a seguinte proposta: “Dou-te o que desejas! Vou-te reinventar de tal forma que vais poder sentir um beijo e tudo o mais que todos os outros sentem. Apenas uma coisa não poderás nunca dizer a ninguém, e isso é que amas! Dizê-lo está-te proibido, vedado, nunca esqueças! Se o disseres perdes-te para sempre no mais desértico deserto onde nunca levarias tuas cabras a pastar! Amanhã volto para ouvir a tua decisão”. E, como tinha aparecido, assim desapareceu no cheiro do lume ainda aceso.

Dia seguinte, exactamente na mesma hora, regressa o Diabo na cubata solteira em busca da decisão de verdade. E a decisão foi que sim, que aceitava. Logo no dia seguinte ao despertar estava cumprido o desígnio, zás! Não mais era coxo, primeiramente, e ao passar em frente ao espelho de latão polido ali estava ele, sem defeito, um príncipe pronto a arrebatar qualquer coração. Um príncipe pastor!

Saiu lá fora sem saber ao certo o que fazer de seguida, mas tamanha era a sua beleza que não passou despercebido no mulherio, e logo na tarde desse mesmo dia, entre ervas altas do capinzal, a promessa foi cumprida! Um beijo foi finalmente dado e recebido, panos tirados à pressa, a carne rasgada na volúpia e no prazer. Aves gritaram na distância, estava selado!

Assim continuou o príncipe pastor ao longo dos dias, dos meses, saltando de lábios em lábios, de corpos em corpos, de leitos de rio em capinzais, até que um dia veio! E esse dia aconteceu parar as suas conquistas, e quem fez tal milagre foi uma jovem de cabelos curtos e estragados, olhos negros fundos, dona de um rosto onde eram visíveis maus-tratos do tempo, da vida e dos trabalhos nas lavras de mandioca exposta aos elementos. Mas o seu coração, ah, esse era de rainha, e os seus lábios de marufo! Prendia mesmo no seu jeito de prender! Seus braços perdiam reacção, seu corpo perdia força de fugir... Assim se apaixonou o pastor!

Encontraram-se em breve na carne de ambos, e nesse enlace nem se deu pelo tempo passar, pelos meses volvidos, as estações, até um dia… E nesse dia tudo o que aconteceu foi estarem de verdade apaixonados um pelo outro, e ele com ela querer casar e fazer filhos. Mas, não sem razão ou propósito, ela pergunta-lhe: Tu amas-me de verdade?

E pronto, e agora é que estava! Que fazer da lembrança já quase esquecida do que poderia não ter sido real mas que realmente aconteceu? Lá veio o cheiro a cinza de fogueira, os gritos dos pássaros... Que fazer do pacto? Como agir? Como recuperar a pureza? Veja-se, se dissesse que a amava perdia-se para sempre, perdendo-a em simultâneo, ela que era o mais precioso da sua pobre vida! Se lhe dissesse que não ou nada lhe respondesse estava a afastá-la por outros caminhos, para outro longe diferente, sentia-o. Que fazer então? Mergulhar nas águas dos espíritos? Tentar os antepassados? Nada! Que fazer então?

Pois eu que aqui vos conto esta estória nunca soube o que aconteceu, o que ele lhe respondeu. Verdade! Já quem me contou estes factos aqui narrados também não soube contar o final, nessa forma que este povo tem de esquecer os maus momentos. Mas isso também pouco importa, pois quando se perde alguma coisa pouco importam então as razões de se ter perdido. Foi só! O resto apenas abre mais a ferida que dói e, neste caso contado aqui, nunca nada esteve ganho, pois fora construído sobre ilusões e falsas esperanças. Mas pode algum criticar? Podes? Mas pensar que tudo isto aconteceu na minha Angola, logo ali numa pequena aldeia lambida de mar, onde nunca nada acontece, aperta este meu velho velho coração!

(Fotografia: Morro da Cruz, Luanda – Angola, Fevereiro de 2007 / Texto: Coimbra – Portugal, 21 de Março de 2007)

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Friday, March 16, 2007

Cœur trouvé

Je pense à toi à tous mes voyages, mon cœur, et à tous les voyages que nous ferons ensemble. Tu me manques nécessairement en tous les aspects de ma vie, de mon quotidien, et après t’avoir connu je n’existe que pour toi et pour te faire sourire. Quand tu n’est pas là je t’invente à chaque instant chez moi. Et à chaque instant j’écoute ta voix douce et j’imagine le parfum que ton corps exhale ! Tu es mon nord, mon océan placide et chaud. Il n’a pas des mots pour te dire ce que je veux…

Dans les lieux les plus absurdes et impossibles, nuit et jour, mon chemin ne se fera pas seul ! Je te promets que pour toute ma vie, en toutes mes voyages, je ne cesserait jamais de regarder les étoiles et chercher dans la nuit la lumière que m’indiquerait un chemin sûr pour ma maison et pour ta peau ! Mon retour vers tes bras se fera toujours parce que mon cœur n’est pas perdu non plus ! Il repose doucement dans tes mains.

(Photographie : Sangano, Bengo – Angola, 13 de Février de 2007 / Texte : Coimbra – Portugal, 16 de Mars de 2007)

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Monday, March 12, 2007

Matéria de Sonhos

Enquanto dançavas viraste-te! Toquei de leve, apressadamente, com a ponta dos meus dedos nos teus lábios e aproximei o meu rosto do teu. Estremeceste, imediatamente os teus lábios me procurando numa sofreguidão de anos e se unindo aos meus no que se poderia reconhecer como um beijo mas que estava muito para além dessa palavra escrita ou dita. Cravaste as tuas unhas nos meus ombros, rasgaste-me o peito vazio e o universo entrou e ficou ali suspenso, espantado e tonto, tentando reconhecer os contornos e as sombras que a proximidade do teu corpo fazia no meu, coberto por um fato azul de estrelas! O meu corpo estava suspenso de uma corda elástica de um tecto de nuvens e, virado para cima, a minha cabeça pendia solta para trás, uma mão tua segurando-a na nuca para que não se perdesse para sempre e um sorriso presente nos meus olhos que fitavam os teus com paixão.

As luzes fortes estavam apontadas para nós, e centenas de pessoas olhavam-nos com a respiração suspensa à espera do momento final. Subitamente milhares de papeis coloridos soltaram-se do céu e choveram sobre nós, tambores fazendo-se ouvir, e a massa humana começou a gritar à medida em que erguias na mão direita um justo e reluzente punhal prateado. Ouviam-se palmas de toda a assistência e os cavalos, inquietos, erguiam-se sobre as patas traseiras. Nas jaulas os leões rugiam e moviam-se inconstantes junto às grades, de um lado para o outro. A chuva colorida cobria tudo isto por completo dando à arena um ambiente de festa geral. Palhaços giravam à nossa volta, lá em baixo, na terra, com sapatos enormes e narizes encarnados. E no meio de tudo isto, no exacto eixo da festa, o teu punhal de noite e lua desceu rápido na minha direcção.

Aí, nesse preciso instante, a multidão desapareceu e subitamente estávamos sós, no silêncio, sem luzes, sem confetti coloridos, sem festa... Só tu e eu. O tempo como que passou a existir de uma outra forma para ti e para mim. Vi ainda as jaulas abrirem-se e as feras saírem mansas para a arena, sem pressas, tudo terminado, já sem medo no olhar. Os cavalos acalmaram e olhavam para nós, à espera. E essa tua mão descia ainda na minha direcção, em câmara lenta, dando-me todo o tempo para sentir o teu cheiro a sândalo, para imaginar o teu sabor a montanhas e a neve, para me lembrar de tudo o que haviamos dito ao ouvido um do outro. E vi mais, vi os teus olhos grandes e escuros sorrirem para mim, e sorri-te de volta num gesto extremo de máxima paixão, de urgente súplica, com o brilho da faca já rente ao rosto que te fitava.

Nasceram então flores brancas e amarelas na arena no instante em que o teu punhal de lua cumpriu o gesto do teu braço e cortou finalmente, de um só golpe brutal, a corda que me retia prisioneiro do Inverno. Libertaste-me finalmente para ti e para a Primavera que me trazias numa cesta decorada de margaridas. As luzes acenderam-se todas de seguida, no momento em que nos prendíamos num beijo tantas vezes imaginado, e a multidão, reaparecida do vazio, aplaudia-nos agora de pé enquanto nós, de mãos dadas, agradecíamos com vénias e sorrisos.

Depois disto tu e eu, exaustos, finalmente adormecemos na nossa cama desarrumada de lençóis azuis escuros para descansar depois de amor tão intenso, em busca de nova matéria de sonhos. Antes deitei ainda a minha mão ao chão para apanhar o meu travesseiro que tinha caído e desliguei o candeeiro pequeno, afastando na altura o desejo que sentia de fumar um cigarro lá fora, a olhar as estrelas de Março. E baixinho sussurrei: "Como te amo!"

(Fotografia: Paris, Dezembro de 2006 / Texto: Coimbra, 10 de Março de 2007)

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Friday, March 02, 2007

At the end of it all

Each time I went away the world collapsed and came together all the same! And yet I loved you, as I went about the ruins in my way, even the one's I helped creating. Things were not easy, despite of what people used to think. Conditions sometimes were harsh, but still you made everything worthwhile with that smile of yours, with that way you had of reaching me as if urging me to touch you, as if I was the most precious element on earth. Here you have me, you used to wisper in my ear. Now I think of it I have to admit that at the end of it all this world is not so bad! Even if everything fails I’ll still can fool myself and dream of getting you back... or at least keep close the memory of those warm days I have held you in my arms for some moments, when you approached me from behind and caressed my bruised lonely soul with your tender sweet touch. Yes I'm still here! Yes I'm waiting still! But I just don't know anymore where to go, or what I'm waiting for. The only thing left for me to do now is remember, I think, because right at the end of it all we had each other and nothing, never, can take that away...

(Photography: Luanda, Angola, February 11th 2007 / Text: Coimbra, Portugal, March 2nd 2007)
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Tuesday, February 20, 2007

Regresso a Casa

Foi como se me tivesse atirado num impulso de um palco para uma multidão de fãs, e centenas de mãos me amparassem a queda e me passassem de umas às outras fazendo o meu corpo viajar rápido e nele deixando a humidade e o cheiro dessas mesmas mãos, desses mesmos corpos. Foi como se viajasse num curso de água sereno que de repente desaguasse num rio turbulento. Depois do medo veio um prazer imenso! O enjoo rapidamente dando lugar ao inebriamento dos sentidos embriaguei-me daqueles cheiros, daqueles sabores, e desejei que a minha pele não mais se descolasse de outras peles encostadas na minha, que os meus pés descalços não mais fossem lavados do pó vermelho, que dos meus bolsos não mais fosse tirada a areia que no Sangano os invadiu. De manhã olhava Luanda na bruma quente, de cuca na mão, incerto, e logo os belíssimos pregões das vendedoras de peixe me chamavam o olhar para baixo, para a rua, e me faziam desejar comprar cacusso ainda sem saber se queria realmente fazê-lo. Depois do medo veio esse prazer imenso! E nas ruas onde tudo se encontra a vontade de não querer encontrar nada mais do que o que se tem, e a paz dessa constatação, olhando os passos lentos sob o calor abrasador das ruas sem sombra. E o que comi, e o que bebi na terra: uma outra realidade a construir-se no meu corpo com o que me dava a provar, outros povos a crescerem dentro de mim na forma como por mim passavam na rua, e falavam, e se mexiam, e se vestiam e me sorriam. Angola impõe-se, e a mão de que pensei querer escapar desejo agora que se feche sobre mim em definitivo para que não mais ouse desejar a liberdade de partir dali para outro lugar qualquer.

(Fotografia: Luanda, Janeiro de 2007 / Texto: Coimbra, Fevereiro de 2007)

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Sunday, January 07, 2007

Away from home # 8

I’m ready now to tell you all the little things I wanted to but just couldn’t.

(Photography: Paris, December 8th, 2006)

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A Missão

ONTEM

Nasci em Angola no dia 23 de Setembro de 1973, numa cidadezinha do interior, capital do Kwanza Norte, chamada Salazar. Angola era uma das colónias portuguesas em África, e vivia já desde os inícios dos anos 60 uma situação tensa e violenta, com grupos organizados lutando supostamente pela independência e auto-determinação daquele país, tendo tido início com os levantamentos e massacres da população branca e alguns grupos locais, como os Ovimbundo, por parte de membros da União dos Povos de Angola (UPA). E o Kwanza Norte, terra de café, foi uma das regiões mais massacradas no território angolano, pois era muito cobiçada e muito rica em vários produtos e minerais.

Em Novembro de 1975 Angola alcança finalmente a independência desejada. Começa então um outro caos, uma nova forma de inferno, com a queda, um após outro, dos ícones coloniais numa guerra civil que viria a durar décadas, a minar grande parte do território e a custar a vida a milhares de pessoas. A cidadezinha onde eu tinha nascido, Salazar, toma então o nome de N’Dalatando, abandonando o nome do odioso ditador António de Oliveira Salazar. Eu tinha pouco mais de dois anos de idade quando, com os meus pais e restante família, espalhados todos um pouco por toda aquela zona do Kwanza Norte e pela capital, Luanda, fui obrigado pelas armas a abandonar a minha casa, o sítio onde tinha crescido, Quiculungo. Ouvi contar que era já demasiado tarde para tentar chegar de carro à capital, a Luanda, e procurar aí alguma da segurança que já não existia no interior norte, ocupado pela Frente Nacional para a Libertação de Angola (FNLA) apoiada pelos Estados Unidos. Ouvi contar, porque não me lembro. As estradas estavam já tomadas por guerrilheiros da FNLA, geralmente hostis às populações portuguesas, e a segurança da capital, nas mãos do Movimento Popular para a Libertação Angola (MPLA), com o apoio da URSS, seria impossível já de alcançar. Era tarde demais. O abandono de Quiculungo deveria ter sido antecipado, mas as pessoas nunca quiseram acreditar que se chegaria àquele ponto. Então, naquele distante mês de Janeiro de 1976, debaixo do som dos tiros disparados na rua, do choro, dos gritos, fizeram-se malas à pressa e integrámos colunas de automóveis e camiões em êxodo pelas estradas em direcção ao norte, à fronteira com o Zaire, sem protecção alguma pois as tropas portuguesas tinham abandonado Angola logo após a independência. Estávamos entregues a nós mesmos, e aos cartões de membro de todos os partidos nacionais que geralmente as pessoas tinham numa tentativa de acender velas a Deus e ao Diabo, e nem todos os membros da minha família sabiam uns dos outros. A guerra tinha-nos chegado a todos subitamente, sem pré-aviso, e apanhou-nos nos hábitos diários. Cada um fez então o que pôde, o que tinha de fazer, independentemente do que sentia por dentro. Isto disseram-me, porque não me recordo. A sobrevivência foi procurada por todos os meios disponíveis, esse é um dos milagres do Homem. Isto ninguém me disse, e só hoje o posso pensar.

Dias mais tarde eram milhares dentro de viaturas, sujos, com fome, cansados, com medo, demasiado confusos, só à espera de autorização das tropas zairenses para atravessar a fronteira para aquele país vizinho e abandonar de vez toda a vida que aconteceu em Angola. E nem todos sabiam de todos, estando perdidos muitos uns dos outros. Ouvi contar que eu estava muito doente nessa altura. Ouvi contar que poucos davam o que quer que fosse por mim, pela minha sobrevivência. Mas a autorização zairense lá veio, em parte pelo esforço de organizações humanitárias, e o êxodo prosseguiu para o Zaire. Para todos os membros da minha família esse foi o adeus definitivo a Angola, pois nunca mais nenhum regressaria.

Já em Kinshasa, embarcámos num Boing 747 com destino a Lisboa. Que estranho ajuntamento de seres vivos deve esse ter sido! Que desfile de miséria e tristeza! Certo dia, dai a muitos anos, vendo um noticiário sobre a guerra na Bósnia e a miséria e fuga de populações, ouviria a minha avó dizer baixinho “e pensar que passámos por aquilo, meu Deus!” E isso far-me-ia na altura recordar o que felizmente não poderia recordar por disso não ter memoria, mas isso será mais à frente.

No aeroporto em Kinshasa o meu avô materno perante a informação de que não poderia embarcar a sua pequena cadela, a Riquita, e a perspectiva de ter de a abandonar ali, não se preocupou muito, não lutou, não se exaltou, não pediu nada mais a ninguém pois estava exausto. Simplesmente a enfiou dentro de um cesto de palha e lá entrou ele com a sua cadela no avião! E ela fez uma viagem de avião de muitas horas em silêncio, sem ninguém se aperceber, apenas com a ponta do nariz de fora para respirar. Naquele caos até os animais parecem ter ganho consciência dos perigos a que estavam expostos, e as pessoas estavam cansadas demais para travar pequenas e estúpidas batalhas. Isto eu ouvi contar, porque não me lembro de nada a não ser de brincar com a Riquita já em Portugal.

Depois disto vem então a parte de que me lembro! E o que me lembro é de sentir um forte cheiro a borracha na aterragem em Lisboa. Tinha dois anos e dois meses sensivelmente, mas recordo já. Estava um dia com pouca luz, cinzento, e estava muito frio para as roupas que trazíamos vestidas. Era Inverno em Portugal e havia muita gente junta. Era o regresso dos “retornados”! Eu nunca fui um retornado, nem a minha mãe, pois nunca daqui tínhamos partido para Angola para mais tarde voltarmos. Eu vim de lá, simplesmente! Seria um “vindo”, quando muito, se me quisessem mesmo classificar. Mas não me quiseram classificar. O que as autoridades portuguesas quiseram mesmo, e fizeram, foi internar-me no hospital Curry Cabral durante tempos que pareciam não ter fim. E estava impedido de ver os meus pais ou quem quer que fosse. Os meus únicos contactos eram com médicos, enfermeiras, e tantas outras crianças que por ali andavam, nuas por vezes, vestidas outras. Nunca deixei que me fizessem andar nu, e recordo hoje com carinho a Dona Madalena, não sei se uma enfermeira se uma auxiliar, que me dava todas as atenções que podia. Nunca mais a voltei a ver, mas foi ela quem raspou um pouco da tinta branca do interior das janelas do meu quarto do rés-do-chão, para que os meus pais pudessem espreitar de vez em quando do jardim e confirmar a minha recuperação, que estava vivo, sei lá! A minha cama tinha grades em volta, e o meu travesseiro era um urso amarelo-torrado de pelúcia, que mantive até aos meus onze anos de idade, já velhinho e usado.

Recordo o dia em que tive alta. Um casal esperava-me no jardim do Curry Cabral. Não me recordo bem dela, mas ele tinha, se a memória não me pregou aqui uma partida, um blusão de pele castanho. Eram os meus pais, e eu perguntei-lhes imediatamente se íamos à praia. Era Inverno. Despedi-me da Dona Madalena, que me deu algo doce para eu comer no caminho para sempre longe dela. Claro que continuei muito doente, claro que durante meses todos continuaram a não dar nada por mim, claro que era “pele e osso”, claro que não comia nada, claro que até me levaram a uma curandeira africana em Lisboa que disse que eu trazia o mal. Mas é escusado dizer que aqui estou! No entanto, tudo isto se passou há muito tempo já. Foi já ontem e hoje é diferente.

HOJE

Tenho 33 anos. Após a separação dos meus pais, tinha eu onze anos de idade, vim viver para Coimbra, onde prossegui os meus estudos e onde me licenciei por fim em Antropologia. Porquê Antropologia? Teve alguma influência o meu passado, o passado dos meus pais, tios e avós, nesta opção? A aventura africana da minha família seduzia-me nas aulas de Povos e Culturas de África? Não! Absolutamente nenhuma. Licenciei-me com uma tese sobre arte e etnografia africanas como o podia ter feito com uma sobre o uso de padrões de xadrez nas roupas tradicionais das populações que vivem da pesca em Portugal.

Desde que vim para Portugal vivi em vários sítios. Primeiro em Lisboa, depois na Nazaré, onde comecei os meus estudos, vindo mais tarde para Coimbra, onde prossegui esses estudos e os conclui. Passei depois pela Lousã, pelo Porto, uma passagem por Londres, novamente Porto e, no fim, de volta a Coimbra. A Angola nunca mais regressei.

Em Coimbra chego a trabalhar durante alguns meses com jovens que viriam de Angola para Portugal, vítimas de minas terrestres, para serem submetidos nos hospitais da Universidade a intervenções cirúrgicas aos membros perdidos. Também eles me contaram de Angola, também eles me deram notícias e me fizeram sonhar.

A 27 de Outubro de 2006 falece o meu avô materno, o tal que trouxe a cadela num cesto farto de conversas, e por coincidência nesse mesmo mês, dias depois, na sequência de um contacto com uma agencia de consultoria internacional sediada em Bruxelas, fui contratado como especialista para Angola numa missão da Comissão Europeia nos PALOP. Já não pude dar essa mesma notícia ao meu avô que tinha feito a viagem para Angola em tempos muito mais difíceis.

AMANHÃ

Ao fim de 31 anos vou finalmente regressar! Não sei bem a quê eu regresso, se às origens, se a casa, se à terra. Não consigo ainda compreender o que me vai acontecer. No entanto, e por mais que não o consiga explicar, sinto que é algo demasiado grande o que está para vir. Assusta-me e chama por mim ao mesmo tempo, de uma forma a que eu nunca conseguiria resistir mesmo que quisesse.

Dia 17 de Janeiro de 2007, às 22.15 h, embarco num voo da TAP que me vai levar na minha primeira viagem a outro continente. E que outro continente! Aquele onde um dia fui desejado e nasci. No dia seguinte, às 7.00 h da manhã, com o nascer do dia, as portas desse avião vão ser abertas e há-de chegar o momento em que me levantarei do meu lugar e me encaminharei para a saída. Tenho a certeza de que me irei emocionar, não é possível pensar que possa ser de outra forma. E lá chegará o instante em que, já fora da influência do ar condicionado do avião, sentirei após mais de três décadas de ausência o efeito do ar quente e húmido de Angola. Vou chegar ao nascer de mais um dia, em plena estação das chuvas, e pode ser ilusão mas sinto verdadeiramente que só lá me poderei finalmente conhecer, sentir-me completo, adulto, descodificado.

Não sei ainda se ficarei apenas em Luanda, onde já sei ir ficar a residir nas Ingombotas, ou se irei fazer incursões pelos arredores ou por províncias do interior. Não estarei em férias, e sim numa missão, com um trabalho concreto, com contactos a fazer, com reuniões a efectuar, com relatórios a escrever, com conclusões a tirar, com discussões a empreender. Mas todos aqueles que me contrataram, que contam com o meu desempenho e desenvoltura, com os meus conhecimentos e contactos no âmbito desta missão da Comissão Europeia, e que sobre os nossos relatórios e conclusões irão posteriormente basear a sua intervenção nos PALOP’s, a estratégia europeia para África, não sabem um pequeno detalhe sobre mim, algo que eu não referi no Curriculum. É que também eu nessa missão terei uma agenda própria, uma missão paralela, algo que só a mim diz respeito. Tentar saber quanto de mim é dali e se me será possível depois regressar. Tenho também a missão de me tentar conhecer a mim próprio e por isso mesmo irei uns dias antes do coordenador.

Durante anos sonhei várias vezes um mesmo sonho: estava em Luanda, sozinho na praia pela primeira vez; tinha à minha frente o Atlântico sul, quente, pacífico; estava sol, haviam palmeiras na praia, e eu começava a correr pela areia em direcção ao mar azul, e ia-me despindo em andamento e atirando as roupas pelo caminho; até que sentia nos pés, e depois nas pernas, e depois no tronco e finalmente no rosto o mar de Luanda; e então vinha à superfície respirar, e em silêncio gritava de felicidade. Falta pouco, isso é já amanhã.

(Fotografia: Paris, 9 de Dezembro de 2006 / Texto: Coimbra, 28 de Novembro de 2006)

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Thursday, October 26, 2006

Dragons and hollow fantasies

Another dragon is going home and all we can do is say goodbye.

(Photography: Camperdouin – Netherlands, March 2001)

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Wednesday, October 11, 2006

At 1/250 of a second

Here here, come on! Don’t be like that please. Try to close your eyes and relax, there’s nothing wrong! Sure I can tell you all about it, although it’s not of such great importance, but will you believe me? Will you? Okay then. Do you remember me telling you about what I felt concerning my passion for photography? Do you really? Well, now I come to think about that, about all the pictures I took, I realise time is really passing and how impotent we really are about it. It’s not something I didn’t knew, but through my photographs I can touch time as it runs by me, and it hurts my hands and makes my fingers bleed! And you know how I need my fingers!

Through my pictures I try and try to capture time, to make it still, to preserve as many fractions of it as I can, just to store it in little boxes with numbers to consume in a nearby future, but it’s always kind of a lost battle. Every picture is a lie, as you know. Nothing of what you see in them exists anymore. That precise moment is gone forever. Do you follow what I’m saying? Just look at this picture here: do you see this man? He’s dead, and still here you have it forever. Excuse me just for a second…

So I went on thinking a little more about that and I realised that each good photo I took holds approximately 1/250 of a second of my own history, some even less, when it’s too bright and the shutter speeds are extremely fast. And what did I thought of next? I came to think that this way maybe in twenty or thirty years time I will be able to actually show images of about one or two seconds of my life – of things I saw, of places I’ve been, of emotions I felt and people I loved. In photographic terms that’s quite an accomplishment, around one or two thousand really good photographs! But lets face it, two thousand good pictures? I don’t think that's realistic at all! But even if it was what would that say about the life I chose and what I chose to do with it? Can you help me here?

That’s the reason of it! Let’s face it; it’s just life. And while we’re at it let me tell you about this dream I had last night: I was walking down a wide avenue at night, with cats all over garbage cans with bright eyes staring at me each moment, and oranges glowing in trees as if they all had inner lights! Those trees were all covered with little orange light bulbs and it felt like Christmas in that wide empty avenue. It was very warm and yet it snowed, and there were no cars, no people, nothing moving except me and those cats in the garbage. I was in a blue pyjama, bare footed, feeling an absence of you from my tiny fragile world.

Can you gather now in a single frame all that I’ve told you? Does it make any sense now? That’s why I’ve come with this diary of my days, this map of my life, that I now hand you! It’s not for you never to get lost, but for me not to be lost forever.

(Photography: composition of images, accepted for the Yahoo Time Capsule / Text: Coimbra – Portugal, October 10th 2006)

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Tuesday, October 03, 2006

A menina da casa de sal

Era uma vez, há muito tempo atrás, uma menina que vivia numa praia distante e deserta, numa casa feita inteiramente de sal. Ela não tinha pai nem tinha mãe, nem sequer sabia muito bem como tinha ido ali parar ou quem era, mas era muito feliz e... muito bonita! Pelo menos todos os seus amigos assim achavam, e ficavam maravilhados com os seus profundos e grandes olhos azuis e os seus longos, ondulantes, cabelos verdes.

Por vezes, de noite, a menina dava maravilhosas festas na sua casa de sal, para as quais convidava todos os seus amigos, como os caranguejos, os golfinhos, as gaivotas, os búzios, e muitos muitos outros animais que vivem do mar. E então, bem, então a casa de sal, com as suas delicadas e translúcidas paredes de sal fino, tingia-se do vermelho das fogueiras que ardiam no seu interior. E de repente, por uma porta, entrava a menina com o seu longo vestido branco, da cor do vento. E todos ficavam maravilhados vendo-a entrar no salão onde o baile sempre se realizava, ao som da música dos búzios, com os seus cabelos verdes flutuantes e os seus mágicos olhos azuis, reflectindo no vestido as labaredas das fogueiras. E quando sorria... não só começava o baile mas todo o mundo se reinventava e renascia. Mesmo as constelações se recompunham no espaço, só para espreitar...

E eram muito animadas essas festas, e todos se sentiam muito felizes, dançando e olhando as estrelas, pois não havia tecto naquela casa, e sentindo a brisa nocturna que fazia tremeluzir fogueiras e velas, pois não haviam janelas ou portas naquele lugar. Dançavam e dançavam, sorriam, rodopiavam quase até ao nascer do dia, altura em que todos tinham de partir, com receio que os seres humanos os vissem por ali, mas só até que se realizasse uma outra festa.
Porém, certa tarde, levantou-se um temporal muito forte! Nunca antes se tinha visto uma coisa assim. Os ventos uivaram com fúria, choveu torrencialmente, tanto que o mar ficou mais vasto, e as ondas ergueram-se de forma assustadora! O mundo ficou então suspenso em silêncio. As gaivotas recolheram aos seus abrigos, os animais marinhos esconderam-se bem no fundo do oceano, e todos estavam muito preocupados com o que poderia estar a acontecer em terra à menina! Ao cair da noite, porém, a tempestade abrandou, e os seus amigos puderam então ir à praia ver se tinha sucedido alguma coisa. Todas as gaivotas do mundo e todos os seres marinhos rumaram àquele local, com os corações apertados, e ao chegarem o que viram foi desolador! A praia estava cheia de destroços trazidos pelo mar, e da casa de sal quase nada restava. Todos a procuraram pelas imediações, mas tirando o vestido branco da menina, que encontraram no areal preso a um galho, nunca mais nenhum deles a voltou a ver ou a ter notícias dela. Quando começou a ameaçar amanhecer regressaram todos ao mar e repararam então que este, outrora transparente, se tinha tingido de azul! Mais ainda, notaram que se tinha tornado salgado e que no cimo das ondas havia agora espuma, e que as algas, antes castanhas, se tinham tornado verdes!

Desde esse dia nunca mais os animais marinhos regressaram a terra. Apenas as gaivotas ainda acreditam, talvez porque não tivessem entendido.


(Fotografia: Quiaios – Portugal, 26 de Agosto de 2006 / Texto: Quiaios, Coimbra – Portugal, 26 a 31 de Agosto de 2006)

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Wednesday, September 27, 2006

A violência do impacto
























Pensando sobre o suicídio lembro-me de ter considerado que este deve ser um acto praticado por quem crê numa vida após a morte, por alguém que acredita ter o espírito uma existência distinta e autónoma em relação ao corpo, acreditando que apenas este último desaparece, permanecendo um espírito (um eu imaterial) e uma consciência de si, mas não me encontro mais tão seguro nessa posição, pelas razões que de seguida procurarei explicar.

Levando em conta o sofrimento limite que um ser humano deve ter de sentir de modo a não ver outra solução senão tirar a própria vida podemos também supor, pelo menos disso estou relativamente convencido, que o acto que decide praticar (ou que pratica, sem sobre ele reflectir demasiado, num momento de desespero) é também em si mesmo uma espécie de penalização que esse mesmo suicida verte sobre os que consigo privaram, numa esfera mais íntima, e que de algum modo não contribuíram para o atenuar desse mesmo sofrimento ou, mais grave, foram seus causadores ou potenciadores. Quero com isto dizer que considerava que o suicida vertia a culpa, ou parte dela, sobre os que lhe eram mais próximos, tais como os amigos, a família ou os colegas.

Deste modo, por um simples exercício de racionalidade e de imaginação, podemos supor por parte do suicida um desejo intimo e não expresso (ou mesmo expresso, em notas suicidas) de magoar, de transferir para outros parte ou a totalidade do peso da existência amargurada que leva em vida. A expressão desse desejo seria o próprio acto suicida. Ao suicida caberia, assim, suportar uma angústia momentânea, eventualmente sentida no momento do acto em si, mas aos que lhe sobreviveriam caberia, na mente desse mesmo suicida (crente na referida separação corpo/espírito e na continuidade deste último, que atrás referi), suportar um peso maior: uma angústia pela vida inteira, uma quota parte de responsabilidade sobre o sucedido, um sentimento de culpa por nada ter feito, por não se ter apercebido, uma ausência definitiva de alguém que fez parte da sua vida e porventura se amou, sempre ou em dado momento. Assim, numa mente amargurada, a consumação do acto ditava, ela mesma, uma imediata sentença sobre as pessoas das suas relações. Isso serviria para a transferência da angustia daquele que se despede da vida como que dizendo “Vêem ao que me vi obrigado, vivam agora com isso! Não sou culpado.”

Ora, a questão que me colocava com frequência era a seguinte: teriam tido aqueles que sobre o suicídio pensaram, ou que o praticaram na forma consumada ou tentada, a ilusão de que após a morte os seus eus imateriais, as suas consciências, por aqui ficariam para observar as consequências daquilo que os seus actos causaram sobre os seus familiares, amigos ou colegas? Desejariam eles que as suas consciências testemunhassem o desgosto, a dor, o sofrimento que os seus próprios desaparecimentos causariam na vida de outros como recompensa por não os terem conseguido salvar a tempo? Dando um exemplo concreto, terá um elemento de uma relação amorosa que decide suicidar-se, por ter sido traído ou ter deixado de ser correspondido, um desejo intimo e secreto de com o seu acto provocar dor e um sentimento de culpa perpétuo sobre o outro elemento? E acreditará ele que após a sua morte o seu espírito por aqui andará para testemunhar o sofrimento causado, regozijando-se em vingança e auto-comiseração? Não me parece de todo uma hipótese a colocar de parte, bem pelo contrário. O suicídio é um acto extremo que estou convencido comportar em si mesmo também um castigo para os que sobrevivem.

Então, a questão inicial que me coloquei, de considerar ser o suicídio um acto praticado fundamentalmente por aqueles que crêem numa vida após a morte, numa continuação de um eu após o acto suicida em si mesmo, está directamente ligada ao que acabei de referir. Veja-se novamente: se as consciências sobrevivessem à morte do corpo os suicidas teriam o prazer de observar os efeitos nefastos do seu acto sobre os outros. Essa seria a recompensa! Só desse modo teria o suicídio razão de ser. Ver o sofrimento causado a quem não nos salvou faria o auto-extermínio valer a pena!

Parece simples este raciocínio, não? Porém dou-me conta de como é redutor e enganador pensar desta forma. Dizia Nietzsche que a recompensa da morte é não ter de passar por ela de novo. Como levamos este factor em conta na equação do suicídio? E se pensarmos ser o acto suicida praticado também por quem tem consciência de que após a sua morte o que lhe resta é o nada? Faz sentido? É plausível? E se pensarmos poder ser o acto suicida praticado também por quem nem sequer se preocupa em considerar se poderá a sua consciência permanecer neste mundo ou não? Faz sentido? E se pensarmos ser o acto suicida praticado também por pessoas a quem não interessa minimamente buscar responsáveis e culpa-los? E se pensarmos ser o acto suicida praticado também por pessoas que simplesmente estão cansadas de viver? Será isto possível? Creio que sim. O caso daqueles que optam, onde essa opção é possível, pela eutanásia comprova isto mesmo. Optam por ela sem com isso pretenderam castigar alguém, simplesmente porque as condições em que a vida existe se degradaram a tal ponto que a tornam insuportável. E neste último caso, embora em outras condições que não a da eutanásia, penso ser algo bem mais assustador na medida em que o individuo se sente apenas cansado do mundo, sem quaisquer outras questões pessoais por resolver que o conduzam ao acto suicida, sem querer culpar, sem querer magoar.

Se no caso dos primeiros uma mente treinada e uma presença forte e sagaz pode ainda reverter o processo, dando ao potencial suicida razões para reconsiderar e abandonar a ideia do suicídio, abandonando igualmente a ideia de procurar a culpa nos outros, penalizando-os, no último caso, o de indivíduos cansados das próprias vidas, pouco se poderá fazer para que reconsiderem. Porque quando tudo o mais nos falta a vida é o último reduto do que de facto é nosso, e o universo mental de cada um é o único bastião que jamais se poderá tomar pela força.

Num como noutro caso o assunto é da maior seriedade pois tratam-se de seres humanos à beira da desistência, sendo este um tema sobre o qual penso e sobre o qual me sinto de certa forma satisfeito por, de tempos em tempos, ir pondo em causa aquilo que julgava ser de resposta relativamente simples. No entanto, é talvez chegada a hora de ir baixando a VIDA das alturas em a colocámos, devagarinho para as consciências mesquinhas não ganirem, para que quando chegar a inevitável hora da queda o percurso até tocar a terra seja mais rápido, menos veloz, menos doloroso, minimizando assim a violência do impacto. E tudo porque é urgente aprender a aceitar o fim.

Hoje, 27 de Setembro de 2006, morreu o meu avô materno, o homem que me criou pela vez do meu pai. Não terminou com a própria vida, morreu apenas de viver. Tocou finalmente a terra, e isso só dói a quem fica.

(Fotografia: Fernando Rosa, Salazar - Angola, 1974 / Texto: Coimbra, 26-27 de Setembro de 2006)

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Thursday, September 07, 2006

Who am I?


I’m 32 years old and I am a soldier. I’ve always been in fights since I was a little kid, to the point of not knowing how to live differently. Whenever I have doubts or get confused, whenever my senses or emotions send given chemical signs to my brain I shoot. I never think things over. I was programmed to take cover quickly and shoot, and already did it to all kinds of people, young and old. It’s not a moral thing and it’s quite easy for I’ve always been in fights, amidst screams, pain and purposeless violence. I dress in forest green and I’m mean.

Every time I travel I do it alone, through fields and meadows, forests, mountains, deserts and sea, carrying all my weapons in me, and I do feel deadly and kind, and I do feel clean and dirty, pure, sinful, mighty and a child. And no one ever sees me coming, passing, going away. I exist in silence where my body is and breathe through some different body I once dreamt I had somewhere.

In my long journeys, sometimes, I enjoy blowing soap bubbles in the breeze and see them suspended in the air. I do it since I was a very little soldier. It’s a way to keep track of the way back home, and that’s why I’m never lost.

Some years ago, though, I thought I had started imagining things! I really thought I was losing it when I took hold of my weapons and started shooting randomly everywhere. The problem was that I started to see, reflected in my soap bubbles, the image of a woman behind me, staring at the back of my head, watching me closely, as if judging me. My blood froze but my body responded as programmed. I turned around quickly and shot, but there was nothing to shoot at! I don’t know why I was frightened, but I really was, and I’ve told you how I react under pressure or stress! On the other hand, she was so beautiful and peaceful!

This kept happening and every time it fascinated and scared me more, until one day, while crossing a dark forest, I saw something white amidst the leaves and bushes! Very slowly and silently I went closer and closer to look. And there she was lying, naked, on a fallen rotten tree – white body over dark green – the woman of my soap bubbles! I went even closer, scared, not breathing through my body but through some other one. She had her eyes closed and was very peaceful, as if sleeping, as if waiting, her chest making slow rhythmic movements up and down. I went to her side and realized she was the one who breathed for me! That made me really confused, and when confused I am programmed to shoot, so I went for my weapon and aimed at her head with a steady arm. Although confused I was about to pull the trigger, I was about to shoot her dead, but then she opened her eyes and slowly turned her head in my direction. Then I saw inside her eyelids. Only then I saw, as if I had always been blind, and what I saw was much too beautiful to put in words! I saw myself with the blue sky behind me! A blue sky with some sparse white clouds, like cotton. Everything inside those blue eyes was magnificent, bright and peaceful.

Then both my hands where attracted to the ground, and my weapons fell over the dry leaves and dust. I felt so tired. Suddenly I was on my knees beside her, facing the dirt, her left hand caressing my head and tears dripping from my chin. Was I a defeated soldier? I surrendered my weapons. Had my fight ended? Not being what I always had been left me facing the question of who I really was. Left me facing emptiness and lack of purpose. Then something strange came into my mind and I whispered, “I breathe in you!” She nodded as if agreeing, smiled, and gently pulled my head towards her. My face touched her skin – and it burned –, I laid it over her stomach and felt both my hands disappearing in her, melting with her white skin like ice cream dropped on the sand in an August afternoon, and must have fallen asleep because there’s nothing more I can remember.

When I woke up it was already dark and cold. The owls were watching me from nearby branches and I had marks on the skin of my right cheek from falling asleep over a tree. I was alone but had this strange ring in a finger and a scar in my chest I’ve never had noticed before. I was alone, freezing, and felt strange. Suddenly I became dizzy and must have passed out because I only remember being morning again and waking full of aches in my body and dead leaves clinging to my bloody self. Every part of me was hurting deeply, and I dragged myself over the ground into a nearby water stream to plunge my face in the cold water. The fresh water in the face and hair came as a shock, because I didn’t realized how bruised the face was and how bloody my hair had been. The stream became red, but it felt good. “What had happened to me?” I thought. Was it a fight?

Only then I opened my eyes to look around, to see this world again, and eventually I faced my image in the water to see the damage. That was when it all happened! That was when the whole world changed! That was when day became night and night became something like a uterus! I shouted out loud, got up jumping and cried like a little kid while running in circles bumping into trees and falling down. I collapsed into the ground and covered my face with my dirty hands. “Who am I?” I kept shouting while crawling. My eyes were now blue, and now I was the one who breathed! I was she; she was I, we where one or something close to it. My body had changed completely…

I stayed in the ground until next day once again, I think, trembling with fever. Amidst convulsions I remember strange thoughts taking over my mind, losing sense of direction and throwing up. I thought of soap bubbles suspended in the air. I remembered mum and dad young again, my dog Nadir, huge waves... I dreamt with women dressed completely in black, faces covered, walking slowly on a beach of very white sand at dusk. I experienced pain and pleasure at once, like morphine. Give it to me! At the same time I was hoping for it all to be just a dream I was feeling really good. It’s not easy to explain. I stayed like that in the ground for the night, trying to figure out my name, my meaning, until falling in a deep sleep.

Early in the morning I got up, brushed my hair using my hands as combs, stretched my new body to make the final adjustments of my soul to it, and picked up my weapons from the ground. I stared for a moment at the sky with my new blue bright eyes, feeling my new long blond hair in my neck and face and adjusting my guns to my hips.
I’m 32 and I am a soldier. I’ll dress in forest green and act mean.

(Photography: Murtinheira – Portugal, August 27th, 2006 / Text: Coimbra – Portugal, September 2nd, 2006)

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Thursday, August 03, 2006

On Earth

To make a long story short, at the beginning there was a big explosion, so scientists say… And then, well, then the planet Earth was formed… More explosions, eruptions, lava, poisonous gases, clouds, rain, ponds, oceans, Life, evolution, destruction, survival of life forms, more evolution, millions and millions of years at the speed of light, first primates, evolution of primates, upright locomotion, use of basic tools, always evolution, some millions of years more and, at a given point, pre-human life in the Rift valley, Africa… Right after that some more millions of years of evolution, controlling fire, travelling and dissemination, the ability to dream, cave painting, more destruction, different pre-human species, fights and blood, survival of the strongest, specialization, birth of Man, migration, affections, cultural and social evolution, written language, conquest of land, fights and more fights and more fights… Art, culture, society, politics, religion, beliefs, differences, more fights, more conquests, more affections, development of great cities, architecture, establishment of huge empires, the birth of Christ, fall of those same empires, middle ages, conquest of more land and the rise of empires of a different nature, craziness, blood and tears, Renaissance, expansion of Europeans all over this world, slave trade, humanism, consolidation of cultures, birth of new countries, industrialization, some more affections, some more craziness, psychoanalysis as an healing, war as an healing, death and destruction, scientific advances, medical progress, better health care, longer life expectations, better education, poorer people everywhere, people travelling faster all the time around this planet, cultures in contact more frequently, the atom bomb, mass television and so and so and so, and at the end? Well, at the end l saw you, I met you, I talked with you, I got to know you, I went out with you, I dreamt of you, I touched your hand for the first time, I fell in love… And suddenly, after so many millions of years, so much more than I could possibly understand and tell, a first kiss! And then there was this silence, this peaceful seconds when time stopped for the first time! And then there was nothing more just because everything was already in it. And then I felt electricity through my body, felt like being experiencing an earthquake, the ground moving under my feet like a huge ray-fish. And then I started to believe that a higher intelligence can in fact exist, oxygen ceased to reach my brain for some seconds, I felt the lack of breath, felt dizzy, I understood beauty, had my own religious experience. And, at last, I understood the meaning of it all… to feel that sweet rosy taste of your lips in a summer night!

(Photography: Rome – Italy, March 2006 / Text: Coimbra – Portugal, August 3rd, 2006)

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Wednesday, July 19, 2006

Hilflos

Wußte nie genau, warum ich es tat! Möglicherweise tue ich es um meine gefühle innerhalb bestimmte grenzen zuhalten... Bitte stellen Sie mir nicht zu viele Fragen. Vor allem, stellen Sie mir bitte keine Fragen, die ich einfach nicht beantworten könnte.

(Fotographie: Frankfurt, Deutchland, März 2001)

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Monday, July 03, 2006

Save my soul

Some months ago I met an American girl that lives in Rome, with whom I developed a great friendship, and even went to visit her in the Eternal City. She was kind of my eyes in there, and ears too. With her, amongst many other things, I learned to pay attention to the sounds of the cities. She’s from New York and we talk about everything, just as if we’ve known each other since little kids. I hope we can grow old seeing each other frequently. There’s also a Spanish girl I met in the same occasion, from Madrid, with whom I maintain a nice relationship, although presently only trough mail – I’ve never seen her again, and maybe the time is coming to do just that or simply to let go. There’s also a young Belgian girl that works with me, with whom I hang out a lot. She’s quite nice, and although extremely young we get along very well. She’ll be leaving in early September, and the challenge is to make a relationship last after she’s gone. Last Saturday I’ve spoken with a tall Dutch girl, from Utrecht, and she seemed very nice. We talked mostly about Holland, but unfortunately only for twenty minutes or so. I don’t know if I’ll ever see her again, I think not – sometimes we loose, and that’s not even a shame, it’s just how things work. And today, well, today I’ve spoken for the first time with a German girl, from Dresden (the white dove), which caught my attention on the bus to work the first time I saw her – she’s an architect and beautiful as an alabaster statue! This one I can not let go – she has already made me dream a lot, with her smile, and I simply can’t throw that away!

The phonebook of my mobile phone has lots of numbers preceded by international dialling codes – as well as many others from my home country, of course – but I confess that sometimes, apparently for no reason at all, I enjoy sending messages I know will be read in distant locations in this world, in different time zones, in different weather conditions, in cities with different stories and maybe discussed after in different languages. Somewhere, for some reason or other, someone in this world remembered us at that specific moment! I don’t know if this planet is getting shorter or larger, and I really don’t care about that. I just have this idea that getting to know people from different parts of this world and, most difficult, build with them a strong and lasting relationship, will make my life worth living. I need that! I’m getting addicted to it.

Some years ago, I don’t even remember exactly when or where, I read this: “Some day someone, in a far away city, will say I am dead”. For some reason I kept this sentence in my thoughts always. Sometimes it came to the surface of my mind and just floated there for a while, and eventually it started to make some sense. To be loved and remembered by people from very different places, and missed as well, just as if I had lived all over this blue and brown and beautiful planet, will maybe be my personal statement about how I think life should be: lived without restraints and prejudice! That is, perhaps, the best thing I will ever leave here after I’m gone, and I do hope the ones who met me see it that way also! Maybe it’s not much of a statement, but the ones who met me and like me should maybe bear in mind that I need that to save my soul.

(Photography: Rome, Italy, March 2006 / Text: Coimbra, Portugal, July 3rd, 2006)

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Wednesday, June 14, 2006

Excess

Too many sleepless nights, too many nightmares and whiskey on deserted pubs / Too many stories told by fireplaces and sheets of paper filled with beautiful hollow thoughts / Too many advices I’ve never followed / Too many light and far too many darkness / Too many women pretending to like me / Sex made with too many people for whom I didn’t really give a fuck / Too many happiness for one person and also too many pain / Too many music taken on dance floors on huge amounts / Too many purposeless conversations / Too many time wasted on insignificant things, and many more wasted on more significant ones / Too many hours spent turning the living-room lights on and off for no reason / Too many drugs diluted in my blood stream / Too many kisses / Too many shaking hands with strangers / Too many shit / Too many diseases taking me to the hospital as a child / Too many pills / Too many travels through strange and far away lands / Too many languages spoken / Too many luggage lost in airports and books left on coffee tables / Too many signs sent to people around me / Too many emotion, too little motion / Too many years spent in college just to shatter completely the person that I was / Too many expectations / Too many wishes made with shooting stars crossing the night of my eyes / Too many of those wishes that never came true / Too many silences when I wasn't alone and too many confusion when I was / Too many pictures taken of places I’ll never return to / Too many parties I never was invited to, and many more I was requested to attain / Too many time trying to think or say something that really made some sense / Too many years trying not to be a clown but acting just like one / Too many precautions with my appearance / Too many Martinis / All this I had, and many more, and for too many time now I’m sure that I’ve always lived my life in the excess of everything / Which road should I follow from here? / Because I simply can’t stop now!

(Photography: London, England, November 2003 / Text: Coimbra, Portugal, June 14th, 2006)

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Monday, June 05, 2006

Neste mundo daqui

Quando o caos chegou à minha cidade eu fiquei. Todos fugiram, uns levando pertences e outros deixando-os absolutamente para trás. Entre gritos e tiros, paredes sendo derrubadas pela explosão de minas, ruas manchadas de um vermelho atroz porque de entranhas, eu fiquei. E não porque tinha inevitavelmente de ficar. Fiquei porque quis. Fiquei porque não fazia sentido que partisse, porque a parte alguma pertenceria jamais como àquele lugar. Fiquei porque estavam ali os meus sonhos e eu não os poderia nunca deixar sós.

Nessa amálgama de sangue e fome, mantive o meu corpo ileso à espera de que tudo passasse e de que pelo menos alguns dos que tinham partido regressassem para que eu os abraçasse de novo. E esperei. E todos os dias fazia exercícios com as mãos ao vento para as preparar para um novo abraço, para novas carícias que ainda não chegaram. Mas esperei, não fugi. Não fazia sentido, percebe-se? Fiz do medo esperança, fiz da fome força, fiz da escuridão a manta debaixo da qual me deitava e sonhava, sonhava… E por entre o brilho das estrelas desse meu cobertor de noite nunca esqueci o teu rosto! E quando as tropas pressionavam o uso das armas eu cobria-me e imaginava-me sempre contigo nas festas populares, dançando dançando dançando…

Se calhar deveria ter partido com todos os outros, com todos aqueles que me tentaram puxar dali para fora. Mas agora é tarde para tentar imaginar como poderia ter sido acaso tivesse sido diferente da forma como foi. Não faz sentido, entendem? Resolvi esperar e esperei sempre, mesmo quando a espera não comportava esperança. E fiz dela uma bandeira para a inevitabilidade de estar aqui, onde ainda estou, à tua espera.

(Fotografia: Nápoles, Itália, 23 de Fevereiro de 2006 / Texto: Coimbra, Portugal, 5 de Junho de 2006)

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Friday, June 02, 2006

Blue smell of the sea

Fireflies on warm summer nights, dancing over my grandparents garden, under the pale moonlight / Colourful crackers all over the small village, lighting the night sky for the festivities and being taken by the breeze / Candy cotton stuck to my small hands, tongue red from lollypops, all that music in the air / And the promise of a long and happy life…

Ice creams in winter, eaten under the heavy rain / Clothes soaking wet, dripping all over the house / Mum gently drying my hair / Dad washing my face, with his tobacco smelling hands / From the kitchen, that sweet smell of familiar harmony / Going to sleep already dreaming of a thousand white clouds in which to rest my body / Sensing a last kiss / Closing my eyes with that promise of a long and happy life…

Wearing red sweaters in Christmas, with open windows to let the sound of the church bells into the house / Books full of fairies and queens and horsemen chasing beautiful fantasies / The roar of the sea outside, saying goodnight to us all, and its blue blue smell / Seagulls at my window right in the morning, and presents just waiting to be opened / Within each one of them a promise of a long and happy life…

The full moon / The birth of a sister, a new presence in the house / A small puppy bought to do us company for a portion of our lives / Dragonflies in dry summer afternoons / The reflexion of my face in the pond, asking so many questions / The calling of grandmother for dinner / My knees bleeding from falling while climbing trees / Oranges eaten right under the burning sun / Dad coming from a trip bringing presents / Falling asleep in front of the TV / Feeling a little strange inside but yet, the promise of a long and happy life…

It's all gone now.

(Photography: Rome, Italy, March 2006 / Text: Coimbra, Portugal, June 2nd, 2006)

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Wednesday, May 10, 2006

What a way!

I am immortal,
I can not go away!
I can’t just leave,
I’m bound to stay.
Oh dear God!
I’m not allowed to get out or to get off.
I’ll get by, though,
Maybe one day He’ll let me go.
I am immortal
And no friends will last.
Their future will always be my past.
What a way to live,
What can I say?
I can’t just leave,
I’m bound to stay.
So if you’re sure you do not want me
You should not worry of what to say:
One day you’ll leave,
And I’ll just watch you go away.

(Photography: Capri, Italy, February 22nd, 2006/ Text: Coimbra, Portugal, May 10th, 2006)

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